quinta-feira, 7 de agosto de 2025

PAST LIVES (2023) e a visão do amor na contemporaneidade

Poucas vezes um filme me bateu tão fundo que continua ecoando há meses e, em virtude de ter recentemente assistido THE MATERIALISTS, da mesma diretora, a sul-coreana Celine Song, o assunto voltou a me provocar.

Podemos amar duas pessoas na mesma intensidade, ao mesmo tempo?

Vidas Passadas (2023), longa de estreia de Celine, tornou-se para mim um marco silencioso e devastador na forma de retratar relações humanas. Longe dos clichês de triângulos amorosos ou da moralidade maniqueísta, o filme mergulha em um dilema profundo: é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo? E mais: é possível que ambos os amores sejam verdadeiros, embora incompatíveis?

Para quem ainda não viu – e está perdendo um filmaço - a narrativa segue Nora, uma escritora coreana que imigrou para o ocidente ainda na infância. Hoje, casada com Arthur em Nova York, ela reencontra seu amigo de infância, Hae Sung, em uma visita que reabre não apenas memórias, mas camadas inteiras de sua identidade emocional. Hae Sung é o que poderia ter sido.

Sob a lente da psicanálise freudiana, poderíamos interpretar Hae Sung como a figura ligada à repetição de uma pulsão infantil não resolvida. Freud descreve o amor como algo atravessado por ambivalências e por uma divisão entre o desejo e o ideal. Já a teoria lacaniana vai além: o amor é uma oferta de algo que nos falta. Hae Sung é, assim, o significante do "real" lacaniano — aquilo que não pode ser simbolizado, mas persiste como fenda. Na minha preferida, a teoria junguiana, os dois homens são arquétipos: Hae Sung encarna o “menino eterno”, ligado à nostalgia, ao amor idealizado, à leveza e à possibilidade. Já Arthur é o “velho sábio”, aquele que representa a maturidade, que compartilha a rotina, que estrutura e que a compreende. Nora se vê dividida entre essas duas forças internas: passado e futuro, espontaneidade e estabilidade, alma e corpo. A estrutura narrativa do filme acompanha esse dilema. As cenas são espaçadas, meditativas. O tempo não corre, espera, como o amor que ficou para trás. Não há reviravoltas, apenas o peso do que se sente e a impossibilidade de realizá-lo.

Acredito que o grande feito do filme esteja em rejeitar a ideia de que esse dilema precise ser resolvido com uma escolha drástica. Nora não trai, não nega, não finge. Ela reconhece que ama Hae Sung e também ama Arthur, mas sabe que a vida é uma só — feita de escolhas que não anulam sentimentos, mas moldam os caminhos. Essa, a grande mensagem do filme.

AGORA, O SPOILER!!! No fim, Nora chora. Chora tudo o que poderia ter vivido, e não viveu. Mas ela volta para casa. E é essa volta que sintetiza a maturidade afetiva de uma personagem que compreendeu que amar duas pessoas é possível sim, mas que nem todo amor cabe numa vida só. O coração humano não é binário. Ele é vasto. Mas a vida, essa sim, exige escolhas. E coragem para vivê-las.


sábado, 2 de agosto de 2025

FEELINGS ARE FEELINGS

 

I dreamed about you.
It was as real as the air I breathe.
I was invaded by all those old emotions. 
Old and bittersweet.
Why now? Dunno.
Couldn’t control. 
Couldn’t prevent.
Didn’t see it coming.
Why now? Dunno.
I just wanna hear your voice.
To touch your hair.
To see you smiling.
Why now? Dunno.
Believe me, it’s confusing for me too.
I just wanna hug you.
To talk to you.
To laugh with you.
Why now? Dunno.
It’s hard to be rational right now.
Feelings are feelings.
Can’t think straight.
Can’t sleep.
Can’t breathe.
Why now? Dunno.
I’m afraid too.
I tried to run away.
Or to go back in time.
We know we can’t.
It’s time to face the present.
The feeling.
The pain.
Jus’t don’t leave me here hanging.
Let’s go through this together.
Because I need you.
For better or worse.
For now.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

CARTA A UM VELHO AMIGO

 Olá, quanto tempo não nos vemos e não nos falamos.

Hoje, sem muita explicação, acordei pensando em você. 

Bateu uma saudade estranha, tive vontade de chorar.

Tive vontade de saber como você está, o que andou fazendo, as coisas que viveu e aprendeu, suas dores e alegrias. Como você está?

Engraçado é que envelhecemos, mas as memórias continuam jovens e vivas. 

Lembrei-me do tempo em que convivemos, das coisas que vivemos juntos, das risadas, das lágrimas, dos encontros despretensiosos e de tudo que poderíamos ter vivido.

Não sei bem explicar o porquê, mas sua lembrança veio de repente, sem aviso, sem contexto, mas com um sentimento profundo de arrependimento.

Poderíamos ter sido e feito tantas coisas juntos, mas quis o destino e minhas neuras que isso não acontecesse. Não posso negar, me sinto culpada por isso.

Tive uma grande curiosidade em saber o que a gente poderia ter sido e vivido.

Eu te desejei em silêncio por longos oito anos, sonhei conosco, sofri por nós, e quando finalmente isso se tornou realidade, eu desisti de viver essas experiências e decidi, assim, sem motivos, te esquecer.

Hoje desejei saber o que você sentiu, se pensou em mim, em lutar por mim, ou se aceitou o que aconteceu como algo inevitável.

Escrevo para você, que nunca vai ler esta carta, mas escrevo, principalmente para mim, tentando colocar em palavras essa lembrança repentina, que veio carregada de emoções, lágrimas e de uma vontade imensa de revisitar o passado, de reescrevê-lo.

Não somos mais os mesmos, é verdade, mas o que vivemos, é único e é nosso. Será para sempre.

Talvez ainda exista amor em algum lugar do meu inconsciente e do meu coração. Afinal, por que agora, tantos anos depois, sem aviso, você voltou a habitar meus sonhos?

Seja como for, mesmo com esse gosto amargo de arrependimento, eu agradeço o tempo que tivemos e vivemos juntos.


Um abraço.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

EU NÃO QUERO SER COMO BELLA BAXTER

Vamos aos fatos:

1) Bella Baxter é uma criança em um corpo de mulher. Se isso não lhe desperta algum gatilho, já temos um problema. 

2) Bella é tratada como um experimento, por isso, sua vida é controlada e moldada a partir desse contexto. Daí seu desprezo pelo sentimental. 

3) Depois, Bella está lá linda e inocente, explorando sua sexualidade, quando Duncan interrompe esse processo ao molestá-la. Mas Bella, cuja inocência não permite ver a maldade do ato, sai em uma aventura de descobertas pelo mundo com o tal abusador a tiracolo. Enquanto ela serve ao propósito de Duncan, ela é tratada como uma princesa. Mas, quando passa a compartilhar suas descobertas, é desprezada, enganada e acaba em um prostíbulo.

4) Vocês vão me dizer que a estadia de Bella no prostíbulo foi fácil e prazerosa? Claramente, não. O que permite Bella sobreviver à situação é sua racionalidade ímpar, sua capacidade de pensar logicamente, tirando todo e qualquer sentimento da equação.

5) Quando retorna à sua casa, já há uma “substituta” em seu lugar, tão ou mais inocente do que ela própria, presa, da mesma forma, àquele contexto limitador.

Eu fico vendo a comoção em torno da “genialidade” de POBRES CRIATURAS e não consigo deixar de pensar na ironia desse título. Para que Bella exerça sua liberdade, ela precisa ignorar a crueldade de um mundo machista ao seu redor. Um mundo que a considera estranha, mas desde que ela não interfira em seu funcionamento. 

Eu admiro a capacidade de Bella em lidar com tanta racionalidade em um mundo que condena o "sexo frágil", mas não a invejo. Essa capacidade de racionalizar sobre tantas sensações poderia sim privar as mulheres de tanto sofrimento, porém, não sentir nada quer dizer NÃO SENTIR NADA. Mesmo. E não creio que a racionalidade seja capaz de dar conta de uma existência inteira. Os sentimentos e experiências que vivemos criam sinapses que formam quem somos e como agimos. É a nossa capacidade de sentir que faz o mundo não ser tão preto no branco porque o mundo não é preto e branco e na natureza não existem linhas retas.

Então, o que Bella Baxter tem a nos ensinar? Emancipação? Duvido. Sempre que penso nisso, vem um gosto amargo de que mulheres sentimentais não tem espaço nessa emancipação. E sabemos o que acontece com sentimentos reprimidos, não é mesmo? 

Que modelo de empoderamento é esse que estamos tentando vender? 

Bella Baxter me incomoda em muitas camadas. Ela não questiona o universo masculino, ela apenas o ignora e vive apesar dele. Será que esse é o caminho?

Eu quero sim a emancipação, mas que ela possa vir com o direito de sentir, de me emocionar, de me apaixonar, de amar e ser também coração.

Não vejo isso em Bella. Gostaria de ter visto.

Abençoadas sejam as emocionadas porque sentir não é pecado!


quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

2023, não preciso da sua retrospectiva!

Este foi um ano especialmente difícil para mim. 
Transição de carreira, instabilidade financeira e mental e muitas, muitas expectativas frustradas. Em meio a um mar de atropelos e quase afogamentos, o número de pessoas dispostas a lutar por mim foi escasso. Sou extremamente grata a todos que toparam a batalha e seguem firmes ao meu lado. 
Tomei conhecimento, do pior jeito, que minha posição profissional importava muito mais do que minha amizade. E que, entre escolher dar voz ao oprimido, preferiram endossar a voz do opressor. 
Percebi que vivi onze anos em uma bolha que apenas me tolerava por conveniência. Passei de “a pessoa empoderada que não tem medo de dizer o que pensa” para “a pessoa desagradável e desequilibrada que não aceita ser contrariada”. 
Fui apunhalada pelas costas por pessoas “amigas” que poderiam ter dito, sem reservas, as mais duras verdades na minha cara. 
Comprei brigas que não eram minhas e fui deixada para queimar sozinha na fogueira. 
Senti na carne e no coração a perversidade de egos feridos e inseguros que não hesitaram em usar de seu lugar de privilégio para me excluir e me calar. 
Foram tantas violências verbais e emocionais que meu corpo e mente colapsaram e me vi internada em uma ala psiquiátrica em que terceiros tiveram que decidir por mim. Sim, pensei em desistir porque a dor se tornou insuportável. Os traumas criados se tornaram gatilhos diários, constantes e paralisantes. Terapia, medicação e carinho da família e amigos ajudam, mas não foram capazes de diluir a dor da perda. 
A perda de viver um sonho almejado, desejado, batalhado com muita resiliência e esperança por anos. Aprendi a importância de confiar em um documento assinado e não em palavras e promessas. 
Não espero compaixão, arrependimento ou qualquer movimento perto disso. Não vou cometer esse erro novamente, mas precisava desabafar em palavras toda a dor que circula em meu corpo como um veneno que me entristece, me adoece e me paralisa. 
Chorei – e ainda choro de dor e me alegro nas pequenas fagulhas de luz que esse sonho concretizado me proporciona. Sei que ainda chorarei muito em 2024, mas torço para que a mudança de ano traga analgésicos e energias curativas. 
2023 abriu uma ferida imensa. 
2024 terá a missão de transformá-la em uma mera e sutil cicatriz.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Eu tenho chorado...

Eu tenho chorado pela dor física

Eu tenho chorado pela alma

Eu choro com as imagens

Eu choro com as lembranças

Doces e amargas

Passadas e futuras

Meu corpo dói

Meu coração dói

Eu tenho chorado pelas risadas debochadas

Eu tenho chorado pelo descaso

Eu choro de tristeza

Eu choro de alegria

Agridoce sentimento

Passado e presente

Que faz meu corpo doer tanto

Que me dá náuseas

Que me dá azia

Eu tenho chorado pra expurgar

Pra esquecer

Pra lembrar

Pra resistir

E pra morrer

Eu tenho chorado muito.

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

QUAL O VALOR DA CRIAÇÃO?

Será mesmo que o trabalho da criação audiovisual se encerra na folha de papel?


Um dia alguém escreveu uma banana, mas no processo, alguém achou que deveria ser maçã, uva, laranja e no fim das contas, o que estamos vendo na tela é um abacaxi. Bem azedo. Produtos mal resolvidos, equivocados, confusos. Os Frankenstein nossos de cada dia. A essência se perde e o resultado fica aquém. Se é frustrante pro público, imagina para quem criou a coisa e dormiu com ela noites a fio!


Temos acompanhado as greves do sindicato americano de roteiristas justamente pela devida valorização do trabalho da autoria-criadora. E vejam que lá, uma das indústrias mais consolidadas do mundo, autores tem bem mais voz e são contemplados como produtores executivos de suas séries. E mesmo assim, estão reivindicando melhores condições de trabalho e remuneração.


O Brasil adentrou o mercado da narrativa seriada usando o modelo importado do cinema autoral, em que a direção geral é a voz máxima dentro de um projeto audiovisual. Acontece que, na grande maioria das vezes, essa direção entra depois que a série está criada, construída e escrita. Na teledramaturgia brasileira, a pessoa que criou, a pessoa que assina a autoria da novela, é a autoridade máxima da concepção artística. É dela que vem as diretrizes para direção, elenco, arte e o que mais abrange a criação. Obviamente que o diálogo entre entre as partes é uma via de mão dupla e as trocas são necessárias e agregadoras, mas quem segue sendo a guardiã unificadora da criação, até a novela sair do ar, é quem criou a coisa. Você pode até não gostar de novela, mas não pode negar que é um produto sólido que, em grande maioria, não se perde na unicidade de sua essência.


Já as narrativas seriadas não tem esse privilégio. O mercado trata os criadores como simples operários à serviço do papel. Roteiros são tachados de meros guias que deixam de existir uma vez que são filmados. A concepção artística dos criadores não é levada em consideração, existe pouca abertura para o diálogo e a unidade criativa vai se esvaindo a cada nova etapa de produção. Criadores não são contemplados na conversa após o desenvolvimento, raramente estão nos sets de filmagem e, quando muito, são chamadas à ilha de edição para ver o resultado de algo que não poderão opinar. Produtores opinam, executivos de canais opinam, executivos de marketing opinam, diretores, montadores e chefes de equipe opinam, até o elenco opina. Mas a pessoa que criou, escreveu, passou meses gestando a história, os personagens, o universo, criando, dando vida àquela obra, é a primeira peça a ser descartada no processo. E a mais frágil também. Ou porque teve que vender sua alma para seguir pagando seus boletos e não está com saúde pra lutar por seu devido espaço. Ou porque tem medo de ser queimada no mercado como uma pessoa "difícil". Ou porque resolveu não lutar contra essa cultura equivocada de empoderar sempre as mesmas pessoas a fazerem as mesmas coisas porque são "as donas do brinquedo".


Ah, mais a pessoa que escreveu não entende de direção, de montagem, de mercado, de marketing, de coisa nenhuma - eles dirão. Além de ser um equívoco imenso, porque sim, cada vez mais os profissionais tem se preparado para o mercado, tem estudado, acumulado experiências e participado, mesmo que sem ganhar nenhum tostão, do processo todo para garantir uma chancela, o papel da pessoa que escreveu não é dirigir, nem montar, nem vender, nem marquetar sua série. A função dela é garantir que sua criação acompanhe uma unidade criativa, que todas as áreas estejam falando a mesma língua e saibam o que essa pessoa estava pensando em dizer, mostrar, quando criou sua obra. Para as outras funções, já temos pessoas bem competentes contratadas.


Há de se pensar se esse modelo que aniquila criadores no processo de produção é saudável, agregador, se ele promove a dita diversidade ou se ele vai atender às expectativas de um público cada vez mais exigente e letrado. Há de se pensar se será possível fazer a roda girar quando criadores se unirem e abandonarem, literalmente, seus papéis para reivindicar mais respeito, mais espaço, mais diálogo, mais participação.


Talvez, nesse dia, quando a coisa toda colapsar e nem o ChatGPT for capaz de contar nossas histórias, o mercado perceba que o roteiro, a criação, não é apenas um guia, mas a alma de todo produto audiovisual.


quarta-feira, 6 de abril de 2022

A MODA AGORA É SER SHOWRUNNER


Quantas vezes eu me pego lendo matérias sobre o lançamento de uma nova série e lá está o famigerado "crédito" de "showrunner". É um misto de vergonha e indignação por jornalistas que não se prestam a pesquisar as funções dos profissionais envolvidos e produtores e executivos que não ficam sequer constrangidos de carregar uma função que não exerceram. Sim, porque, para além do mico de não terem exercido, vale lembrar que a função de showrunner não é e nunca foi um crédito. 

Eu sei que a nossa realidade está distante da indústria audiovisual americana - ou mesmo europeia, mas já que decidimos importar o título, vale conhecer, nas palavras dos próprios, o que significa a função. Primeiro, pra ser bem didática, aqui vai a definição da palavra no dicionário: show - a série, o projeto, a obra; runner - o condutor. A função, que essencialmente é exercida por autores-roteiristas, diz respeito ao gerenciamento criativo e de produção de uma série. Showrunner, que é creditado como Produtor Executivo ou Produtor (esses sim créditos válidos), é responsável por garantir a unidade artística da obra, por gerenciar o orçamento, as contratações de equipe e elenco e por ser a principal ponte de comunicação com produtores e executivos de canais. 

Sim, é muita coisa, e talvez tenhamos poucos nomes aqui no Brasil que de fato preencham todos os requisitos. Mas daí a banalizar a coisa e sair colocando essa função no LinkedIn como se nada? Por favor, tenhamos um pouco de senso de ridículo. 

O mais importante a saber é que, se você não escreve, não é o autor/criador da série ou não é o roteirista-chefe, nunca abriu um programa de formatação de roteiro na vida, não sabe o que é escaleta, arco de personagem, ponto de virada, ou qualquer outra nomenclatura que basicamente define dramaturgia, ou nunca escreveu uma linha de roteiro na sua vida, não se intitule showrunner. Porque você não é. Ponto. Se você vai jogar o controle criativo na mão de um diretor que não escreve, isso não faz dele um showrunner, muito menos você. Se você é produtor ou faz a supervisão artística de um projeto, você também não é showrunner. Se você é o executivo de canal encarregado do projeto ou o dono da produtora, também não faz de você um showrunner. Se o canal te deu esse título porque você é o dono da ideia ou diretor da série, mas não está todo dia na sala de roteiro tomando decisões sobre as escolhas da sua história, dos seus personagens, ou nunca escreveu uma linha desse texto, você também não é showrunner. 

Precisamos parar de glamourizar a ideia de showrunner. Ao se auto intitular em uma função apenas "porque sim", você não se torna mais inteligente, mais interessante ou com mais poder, você se torna apenas arrogante mesmo. Ao nosso mercado, falta formação, falta humildade, falta abandonar a síndrome do cachorro vira-lata e a soberba de achar que não tem mais nada a aprender. Não há problema nenhum em olhar para o que funciona e adaptar para nossa realidade. Queremos estar entre os grandes, ganhar prêmios, ter nossas séries assistidas e renovadas por muitas temporadas. Mas vivemos um atraso de décadas em relação a outros mercados audiovisuais mais amadurecidos, lidamos todos os dias com a mediocridade de alguns governantes que não respeitam arte e cultura, com o desafio de formar plateias, e de convencer investidores (em sua maioria internacionais) de que somos capazes de fazer mais do que o mesmo. Enquanto não colocarmos nosso ego de lado, arregaçarmos as mangas e colocarmos a mão, de fato, na massa, não tem como a gente amadurecer ou provar nada. Seguiremos abaixando a cabeça para a mediocridade e para a hipocrisia que nos cercam. 

Algumas fontes: 
BENNET, Tara. Showrunners: The Art of Running a TV Show, 2014. 
KALLAS, Christina. Na Sala de Roteiristas, 2016. 
SCOVELL, Nell. Só as partes engraçadas, 2019.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Precisamos falar sobre PRIVILÉGIOS

E lá vamos nós tirar a poeira desse blog lindudemeodeos! O assunto da vez é PRIVILÉGIOS. Será que estamos prontos para abrir mão de nossos privilégios em prol de uma sociedade mais justa, igualitária e representativa? Como MULHER nesse mercado audiovisual há mais de 10 anos, inúmeras foram as vezes em que me vi numa sala de reunião onde eu era a única mulher presente e inúmeras foram as vezes em que minha opinião teve de ser validada por um homem para valer como opinião. Alguns homens sequer me dirigiam o olhar. Alguns anos (e muita militância) depois, esse cenário foi mudando, mais mulheres nas listas de opções para contração, mais mulheres participando das reuniões em posições de liderança, mais homens entendendo seu papel nesse novo mundo, interessados em ouvir, interessados em mudar. Há ainda, contudo, uma longa caminhada pela frente. Vivemos em tempos no qual homens ainda opinam sobre nossos direitos reprodutivos, nos objetificam, nos violentam física e psicologicamente e até nos matam em nome de seu “direito adquirido”. O machismo estrutural ainda é um problema que requer mais do que apoiar uma causa ou curtir posts feministas. Requer, acima de tudo, vigilância diária, empatia, ouvir mais do que falar, às vezes ceder espaço para dar palco a outras vozes. Vozes essas que tendem a discordar da opinião vigente. Como pessoa BRANCA, coube a mim entender que meu feminismo precisaria abarcar não só outras raças, mas outras classes sociais menos favorecidas e o que mais aparecesse no caminho. E acreditem, muitos dedos ainda se apontarão para mim. Como parte de uma estrutura, é normal que, mesmo vigilantes e empáticos, ainda nos sejam apontados vários dedos. E isso às vezes é bem desconfortável. Mas necessário. O que eu percebo, infelizmente, especialmente em relação a pessoas brancas, cis e, particularmente homens, é que elas, por sempre terem ocupado o topo da cadeia de privilégios, talvez não estejam dispostas a serem incomodadas, a viverem esse desconforto diaria e constantemente. Especialmente se os dedos apontados e questionamentos vierem de pessoas próximas, como um colega de trabalho, um amigo ou mesmo de um ente querido. Quando se está em um lugar em que sua existência, voz ou opinião nunca é questionada ou silenciada, é bem incomodo se acostumar a isso. Mas não é NADA se comparado com a dor desse outro que não tem esse privilégio. Nada mesmo. Eu queria muito entender por qual motivo, nós, do conforto do nosso privilégio, estamos preferindo nos fechar na nossa bolha, ignorando, invalidando ou mesmo desprezando a dor do outro e rindo de banalidades como uma série de brancos babacas exercendo seu privilégio, enquanto o mundo lá fora pega fogo e clama por nossa ajuda, cooperação e empatia. Seria medo de perder os tais privilégios? Ou de encarar, de fato, que talvez não tenhamos merecido esse lugar? Ainda estou pra descobrir... Como mulher, percebo claramente os benefícios da evolução que citei no começo deste texto. E não só para as mulheres. Para a sociedade como um todo mesmo. Melhora o debate público, as relações interpessoais, a saúde mental, e até a economia. E isso não é uma opinião, é um fato. O que me leva a acreditar que evoluir é preciso e o resultado dessa equação nos fará sempre melhores. Aproveito para dividir com vocês, a crítica perfeita feita pela roteirista e presidente da ABRA, mulher, negra, Maíra Oliveira sobre a série THE WHITE LOTUS. Para finalizar essa reflexão, fica aqui o meu apelo: Em tempos de tanta polarização, dialogar também é um ato de resistência. <3

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O FUTURO É FEMININO

Quando eu andava na rua com a camiseta que estampa essa frase, percebia os olhares em mim. Sempre de homens. Sempre fazendo piadinhas. Uma delas aconteceu no trabalho: "não, o futuro é a igualdade de gêneros". Sempre tentando me corrigir, me "educar", me diminuir. Claro que eu nunca me abalei mais do que o necessário com esses comentários, mas poderia ter explicado, bem didaticamente, que o significado dessa frase vai muito além do que está escrito nela. O futuro é feminino, sim. Porque o feminino constrói ao invés de destruir. O feminino agrega ao invés de dividir. Tem empatia, colaboração, altruísmo, caridade e amor. Porque o feminino usa a força para resistir e edificar, usa a dor e a derrota para aprender e evoluir. O feminino se permite sentir, se permite chorar e acolher. O feminino abraça, beija e toca por afeto. O feminino não se apropria, não mina, não cerceia. Não à toa, o feminino gesta vidas. E em cada vida, uma esperança de um futuro mais feminino. O mundo está visivelmente mais carente desse feminino. E para aqueles que ainda nao entenderam o significado de FEMININO, uma dica: Com que energia você encara o mundo ao seu redor?

domingo, 22 de setembro de 2019

RELATO DE PARTO

Desde que decidi engravidar, em 2017, comecei a pesquisar sobre PARTO HUMANIZADO e descobri que sabia muito pouco sobre o assunto. E descobri também como o PARTO NORMAL era visto como um vilão para muitas mulheres, que associavam este momento a uma experiência de dor e sofrimento.
Minha jornada começou quando assisti o tão necessário documentário O RENASCIMENTO DO PARTO. Ali entendi muito sobre as violências obstétricas e a influência pesada da construção machista e patriarcal sobre o PARTO.
Em setembro de 2018, quando engravidei, só tinha uma certeza: eu queria "sim, com certeza" um parto humanizado, fosse ele em casa ou no hospital, e queria um parto natural.
O segundo passo foi procurar uma equipe médica com olhar humanizado. E assim chegamos ao Coletivo Nascer da maravilhosa Ana Cris Duarte. Lá fizemos todo o acompanhamento pré-natal e dividimos com outras mães os anseios e dúvidas do parto e da maternidade. Entendi também as reais necessidades de uma cesárea, e que também poderia ser humanizada.
Foi lá também, numa palestra sobre PLANO DE PARTO (outra grande ferramenta da família no momento do parto), que conheci minha doula anja Camila Aguiar, pessoa maravilhosa que foi essencial para que eu tivesse o parto dos sonhos. Além das dicas maravilhosas para o parto e pós-parto, ela me foi uma grande fonte de força e empoderamento e me fez a todo momento acreditar que eu era capaz.
Meu trabalho de parto começou quando completamos 40 semanas. Naquela terça-feira, eu e marido fomos à consulta pré-natal cansados e frustrados. Eu reclamava da barriga dura e da dificuldade em dormir. Estava ansiosa também. Queria ver logo a carinha da minha filha e pegá-la nos braços. Mas como eu não tinha nenhum dos sintomas previstos para um início de trabalho de parto, as previsões não eram animadoras e a gravidez poderia ir até as 42 semanas. Naquele dia, conversei com a doula e decidi fazer uma indução natural. Eu já estava na osteopatia com a maravilhosa Violaine há alguns meses para aliviar as dores nas pernas, quadril e estômago. Naquela quinta-feira, fiz a indução numa sessão de acupuntura. A osteopata me recomendou repouso total e me receitou um shake com néctar de damasco e óleo de rícino para ser tomado na sexta-feira de manhã.
E assim fizemos.
Na sexta-feira, depois de tomar o shake e deitar de novo, acordei por volta das 13h e percebi um pouco de sangue na hora de fazer xixi. Ao contrário do que se imagina, aquele foi o momento mais feliz da minha vida! Eu não tinha tido nenhum sinal ainda, nem mesmo da perda de tampão, então ver aquele sangue na privada foi motivo de pura excitação. Acordei o marido, almoçamos e sentamos pra ver televisão. Lá pelas 15h, senti uma umidade na calcinha. Ao chegar no banheiro, vi aquele líquido com cheiro de água sanitária escorrer. Era a bolsa que estava vazando. Fiquei ainda mais animada. Avisei a doula e fiquei em casa de boa com uma dorzinha bem discreta e gostosinha no topo da barriga. Pedi ao marido para me fazer uma canjica doce. Estava feliz da vida. Por volta das 17h, a doula chegou e fui para o chuveiro. A bolsa estava vazando mais, mas como ainda não tinha contrações ritmadas, Camila foi pra casa e eu fiquei no chuveiro, sentada na bola de pilates relaxando. Por volta das 18h comecei a sentir as contrações de verdade e sem nenhum intervalo entre elas. Ao contrário do que eu imaginava, a dor não era uma cólica, mas uma queimação no quadril que se intensificava e depois sumia, como uma onda. Comecei a andar pela casa enquanto esperava a doula voltar. Comi a canjica, mas nem lembro que gosto tinha, pois estava já numa outra dimensão. Por volta das 21h, Camila voltou. Fazia massagem no quadril para aliviar a dor no pico das contrações. A obstetriz, uma fada chamada Cibele Macedo, chegou em casa por volta das 23h e, ao me examinar, viu que eu já estava com 9 centímetros de dilatação e era hora de ir para o hospital. E lá fomos nós. Marido no volante, Camila no passageiro, Cibele no banco de trás comigo deitada no colo dela enquanto as contrações, sem intervalo, anunciavam um parto rápido.
Chegamos na maternidade perto da meia noite e, depois das chatices da admissão, eu, marido, doula e obstetriz, nos juntamos a querida obstetra Lívia Franzini na sala de parto. Não tive banheira, mas tive chuveiro, bola, cama e banqueta de parto pra ir revezando durante as contrações, sempre incentivada pela equipe, em especial minha doula querida, que quando eu reclamava da dor, sempre tinha palavras positivas de encorajamento e conforto. Lá pelas 2h (não tenho certeza da hora exata), doula e obstetra foram descansar um pouco e a fada Cibele ficou comigo. Subi na cama e, de cócoras durante os picos das contrações, fui administrando a dor. Já estava muito cansada e Cibele me pediu pra colocar a mão e sentir a cabecinha da bebê. Aquilo foi de uma emoção imensa e me renovou a força e coragem pra continuar ali firme. Ao me examinar de novo, Cibele percebeu um inchaço do lado esquerdo do colo do útero que estava impedindo o encaixe da bebê. Fez massagem com óleo de prímula e gelo e a dorzinha chata que tinha daquele lado desapareceu. Lá pelas 4h, a doula e a obstetra voltaram e era hora de agir. Fizemos os exercícios de spinning baby, todo mundo ajudando, inclusive o marido. Camila tirou o relógio da sala para eu não ficar preocupada com o tempo e começou a me incentivar a fazer força quando as contrações viessem. Como elas estavam mais espaçadas, eu, deitada na cama, conseguia dormir e descansar um pouquinho entre elas. E isso foi muito bom. Lá pelas 5h, fui pra banqueta de parto, marido atrás amparando as costas, obstetra no chão monitorando os batimentos da bebê, tudo forrado e preparado pro nascimento. Comecei a fazer força durante as contrações, a bebê estava ótima, mas nada de descer e sair. Camila e Cibele sempre com suas doces palavras de incentivo e encorajamento me ajudando a ficar firme. Beatriz estava chegando. Lembrei de uma vocalização que havia aprendido na aula de dança materna com a linda Pamela Morimoto que consiste em emitir um A bem forte, transformando o corpo numa grande caixa acústica que vibra e permite o bebê se encaixar melhor. Nos intervalos das contrações, eu vocalizava longos As e na contração fazia força. Na primeira força, senti o círculo de fogo. Fui tomada por uma felicidade imensa. Beatriz estava quase chegando. Na segunda força, senti minha filha já no canal vaginal, eu a chamava e ela se mexia. E eu sentia tudo. Que momento divino e mágico, ela estava ali me dando força para continuar. Na terceira força, às 6h22 da manhã de um lindo sábado, Beatriz nasceu. Naquele momento eu senti a força da natureza, meu poder como mulher, como animal, como mãe. Meu marido chorou. Eu já nem lembrava mais da dor ou do cansaço. Como um ser muito racional que sou, achei que isso seria impossível, mas descobri que hormônios são poderosos. Eu era pura alegria e amor. Nunca me senti tão bem e viva em toda a minha vida. Abraçamos nossa filha e lhes demos as boas vindas. Subi na cama sozinha, deitei, colocamos ela no peito e ela mamou como louca. Olhinhos espertos e boca certeira. Foi lindo. Ficamos ali, eu, marido e Bia curtindo nossa hora dourada com muito amor e alegria. Depois, esperamos o nascimento da placenta, que não demorou mais que 20 minutos. Em seguida, Gabriel, meu marido, cortou o cordão. Bia foi examinada pela pediatra Thais Zenero no meu colo. Tudo feito com muito amor e carinho. Levei alguns pontos pela laceração do períneo, mas não senti dor nenhuma. Como tenho aflição da agulha, reclamei um pouco, mas logo passou. Não mudaria nada do que aconteceu.
Fiz questão de citar o nome de todas as mulheres maravilhosas que me ajudaram nessa jornada porque essa é a prova de que nós mulheres somos fortes, donas de nossos corpos e mentes e capazes de feitos excepcionais como parir de forma natural e saudável. E espero que esse seja só o primeiro de muitos bons exemplos que darei a essa menina maravilhosa que coloquei no mundo. Beatriz, você me ensinou a ser uma pessoa melhor. Te amo.

sábado, 20 de janeiro de 2018

SADNESS

And I let this blue feeling invades my heart and produces some tears.
In a way, it makes me stronger, it gives me courage and the awareness that I can do anything.
That I can fight the world...
Even if I feel I am not ready or worth of it.
So I'll let this feeling takes me by assault, transforms me, pushes me forward...
Because if I can feel it, I can manage it or just find the right spot to place it inside of me.

domingo, 24 de dezembro de 2017

AUTO DE NATAL

O mundo está mesmo muito chato...

...pra você que é HOMEM
...pra você que é de raça BRANCA
...pra você que é CIS
...pra você que é HETERO
...pra você que NÃO DEPENDE de programas sociais
...pra você que sempre teve PLANO DE SAÚDE
Que sempre estudou em ESCOLA PARTICULAR
Que fez FACULDADE
...pra você que pode fazer ESTÁGIO NÃO-REMUNERADO
...pra você que TRABALHA
...pra você que NÃO quer ter FILHOS
...pra você que não SUSTENTA uma CASA ou uma FAMÍLIA
...pra você que acha BONITO fazer caridade
...pra você que mora em CASA PRÓPRIA
Que mora em BAIRRO BOM
Que anda de CARRO
...pra você que neste Natal vai estar no CONFORTO da sua casa, com a sua família, trocando presentes e comendo peru e arroz com passas.

Só não esqueça que tem muita gente que NÃO está nessa lista.

Se pra você está chato, aprenda a lidar com isso. Pra você é fácil.

Porque pra elas, está simplesmente insuportável.

É POR ELAS que o mundo PRECISA e vai continuar CHATO.

Feliz Natal.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Se o preço é “acabar com o romance”, eu também troco DE BOA

O texto não é meu, mas como eu não uso mais FB e ele merecia muito o compartilhamento, pedi autorização à autora, a maravilhosa roteirista e escritora Renata Corrêa, para publicar aqui.

Simplesmente leiam! Eu não preciso dizer mais nada...

"Gwyneth Paltrow é da elite de Hollywood. Seus pais são trilhardários e o padrinho dela é o Spielberg. Sim, o cara que fez ET derramou a água batismal na cabeça dela quando ela era bebê. Quando ela foi assediada pelo Weinstein ela namorava o Brad Pitt.
Se isso aconteceu com ela imagina com produtoras, assistentes, figurinistas, atrizes menos famosas?
O caso tem todos os elementos que nós, mortais, longe de Hollywood estamos cansadas de saber.
Um homem de poder assedia.
TODO MUNDO sabe e comenta.
Aparece uma mulher com coragem e relata para dar um basta naquilo.
A mulher é ameaçada, silenciada e desacredita pelos homens ao redor.
O caso é abafado.
Até que surja mais um caso, mais uma evidência, mais um indício.
Outras vítimas aparecem. O abusador nega, diz que vai processar a imprensa e logo se fiz arrependido.
Agora disse que vai fazer uma “rehab de comportamento sexual” na Europa.
Rehab de comportamento sexual? Ele não buscava sexo. Ele exercia poder através da intimidação. Sexo é outra coisa. Assédio não é sexo, estupro não é sexo. Sexo é algo que pessoas adultas fazem, querendo, consentindo.
O cara ainda está destruindo a carreira da própria esposa, que tem ume grife de vestidos e agora descobriu que ele obrigava as atrizes a usarem a marca nos tapetes vermelhos. Destruiu a vida das assediadas e da azarada que decidiu dividir o teto com ele.
No Brasil não é diferente. TODOS OS DIAS alguma conhecida me relata um caso onde as instâncias de poder que deveriam proteger as mulheres simplesmente lavam suas mãos: chefes, Rhs, delegacias da mulher.
Homens: simplesmente mantenham os seus paus dentros das calças. Não é difícil. Para vocês combaterem o assédio basta não assediar. Parem de hipocrisia e babaquice. Ninguém é obrigada a lidar com macho babando igual cachorro velho se esfregando na gente. É simplesmente nojento.
::
Ah, mas me perguntam alguns amigos homens bem intencionados:
“O feminismo vai acabar com o romance. Tudo agora é assédio!”
ou
“Ah, mas acontece né? Supera... pô não é possível que isso vá acabar com a vida de alguém”
Eu pedi autorização para duas amigas próximas, para contar as histórias de assédio delas.
Uma delas tinha 17 anos e estava no terceiro ano do ensino médio. Tinha acabado de ser transferida para uma escola particular, ela estudava numa pública antes. Os pais decidiram transferir para ela se preparar melhor pro vestibular. Ela não tava conseguindo fazer muitos amigos, mas o professor de química era muito maneiro, vizinho dela, dava uma super força, corrigia as provas com ela junto. Um dia ele ofereceu uma carona, ela aceitou. Pq não aceitaria? Ele estava há um semestre se mostrando uma pessoa confiável com a qual ela convivia todo dia. Pois bem, chegando na rua da casa dela ele passou a mão na perna dela e começou a dizer o quanto ela era bonita, especial, madura. Ela ficou paralisada, sem reação num primeiro momento. Mas logo soltou o cinto, deu dois beijinhos no cara fingindo que nada tinha acontecido e saiu correndo. Ela tropeçou no meio fio bateu a boca e perdeu um dente. Ele arrancou com o carro. Ela não voltou para escola e perdeu aquele ano, atrasando sua formação. Anos depois no mestrado, um professor ofereceu carona para ela e outros alunos para ir pro metrô e ela teve uma crise de pânico.
O outro caso uma amiga estava fazendo um tratamento ginecologico complicado. Ela era super nova mas queria ter filhos, e sabia que o problema que ela tinha poderia afetar esse desejo no futuro. Depois de uma consulta de rotina ela desceu da maca e o médico dela (que eu conheço e o dedo tá coçando pra dar o nome) ofereceu uma pomada. Ela estranhou, perguntou para que, e ele simplesmente passou a pomada na mão e meteu na buceta dela “massageando” pra ensinar ela a passar a medicação adequadamente. Ela começou a chorar ele desconversou, perguntou pq ela estava tão abalada. Ela demorou TRÊS ANOS para voltar em outro profissional, que, pasmem!, disse para ela que não havia problema nenhum, que o tratamento longo e complicado que ela tinha se submetido três anos atrás era uma mentira. Mentira usada para facilitar o assédio e a submeter.
Quando caras como esses assediam eles estão dizendo que o pau deles é mais importante que a nossa carreira, nossa educação e nossa saúde. Foda-se se minha amiga atrasou o sonho de ser médica ou a outra acreditou por meses que era estéril se submetendo a um tratamento que, com sorte, foi ineficaz e não perigoso. Foda-se. É mais importante mostrar para as mulheres que não existe lugar no mundo para elas e que homens podem fazer o que quiserem, mesmo que isso afete nosso futuro, nossa integridade física e emocional.
Se o preço de isso parar é “acabar com o romance” como conhecemos hoje eu troco DE BOA. Sem problema nenhum. Prefiro ficar sem romance do que me submeter."

domingo, 8 de outubro de 2017

Inspiração X Transpiração

Será que inspiração é mesmo uma coisa divina, um dom?

E se eu não acreditar nessa entidade divina, seria um gênio da lâmpada, uma força da natureza?

Longe de mim tirar o mérito daqueles que nascem com um talento, predestinados a uma coisa que fazem com tanto capricho e aparente facilidade. Mas não foi um cara desses, Tiger Woods pra ser mais exata, que falou uma vez “quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho”? O próprio Ayrton Senna era um cara obcecado por treino e fascinado por mecânica.

Pois bem, acredito que a maioria de nós não se encaixa na categoria “prodígio” e não dá pra ficar olhando pra cima esperando que um raio inspirador caia na cabeça. Essa coisa de sentar e ficar olhando a folha em branco? É a maior balela que eu já ouvi!

Por isso, mesmo para os predestinados, está mais do que claro que inspiração é sim transpiração. É treino, é estudo, é questionamento, é muita tentativa e erro pra chegar ao acerto.

Não ache nunca que te falta talento ou dom.

Você só pode se sentir inspirado pelas coisas que vive, que vê, que ouve, que sente. O nada só pode inspirar o nada.

O que não pode faltar mesmo é esforço. Mas esforço no sentido de buscar fontes de inspiração.

Rodeie-se de pessoas, livros, filmes, músicas, qualquer coisa que estimule aquilo que você está buscando.

E se você não tiver clareza do que busca, faça coisas que você gosta e se exponha a novas sensações.

Eu te garanto que um lampejo de inspiração vai surgir, inevitavelmente.

Inspiração vem da alegria, mas principalmente da dor, porque é quando estamos mais sensíveis. Vem daquilo que nos surpreende e nos arrebata, vem do gozo, do medo, da dúvida… Vem de tudo que está a nossa volta.

Tudo que precisamos fazer é prestar mais atenção.

sábado, 12 de agosto de 2017

Dull Boy

Dear Jack,
I am writing this because I know you will never read it.
But I kinda hope you would.

You should know you woke the best and worst in me.
The best - because I see myself differently now, you made me brave, you made me believe.
The worst - because you broke me and I don't know how to fix me.
Don't get me wrong, I am just intriged...
You went from "closest friend" to "coldest stranger" in a blink of an eye.
And you didn't tell me WHY.

And when I was ready to let you go, I saw your little "homage"
And that really pissed me off
Because that "WHY?" started echoing inside my head again.

I have tried to hate you since them, but I couldn't.
Not because I am weak, but because I am vain.

And after torturing myself to understand WHY
I decided to simply ask you
But again, you left me with no answer.

I believe you do like the game.
Well, just so you know, I DON'T.
I'd rather be your earnest friend. I really do.
Or I did.
'Cause again I feel hurt, stupid and wrong.

But WHY do I fuckin' care?

I am using this pain to express myself artistically and I am doing great.

You don't deserve any of these words.
But I had to get it out of my system.


sábado, 29 de julho de 2017

dismissive

I hate this.
I hate the way you make me feel.
I hate your compliments.

I hate the way you treat me in person
And the way you talk to me.

I hate your fake politeness
And your little mind games
‘Cause I know it is just to keep me close
But to keep me away.

I am not your toy
Or a thing to feed your ego.
I bleed and I cry
And you should respect me
‘Cause you bleed and cry too.

I hate writing this
But it prevents me from going mad.
Mad at me, mad at you,
Mad at this dismissive universe
Who allowed this to happen.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

MISTAKEN

Why does it feel like I committed a crime?
Was I reckless to let you in?
Was I so naïve to never see it coming?
Now I am broken.

Why does it hurt so much?
Why does the pain never go away?

I keep playing your words in my head, trying to give them a new meaning.
Wish I´d never felt so at ease.
Wonder I could unsay my honest thoughts.
They seem to be the cause of your estrangement.
Or should we call it a revulsion?

Was it reckless to let you in?
Was I so naïve to never see it coming?
Now I am unease.

Why did you let me in?
Why did you seem so intimate?

I keep fighting these thoughts.
Wish I could recover my blessed ignorance.
Wonder we´d never met.
But I know that's a foolish way to solve things.
Or is it the only way?

Was I reckless to let you in?
Were we both so naïve to never see it coming?
Now I feel silly.

I think I deserve to know why
Whatever reason you had to drift apart
Because I need a closure
If we cannot be friends anymore.

Why does it hurt so bad?
Wish the pain would go away.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

SHE´S FOUND HER WAY BACK

Eu fui uma criança criativa. Já contei essa história. Sempre gostei de escrever. Poesias, letras de música, peças, contos, pensamentos. Sabia que meu caminho profissional seria por aí. E acabei no audiovisual. Ficção sempre foi uma paixão. Paixão que virou Trabalho. Quem poderia desejar sonho mais doce?

Só que a criança criativa havia ido embora. Quer dizer, a criança que expressava seus sentimentos pela escrita tinha, há muitos anos, partido. Ainda bem que a sensibilidade permaneceu. Habilidade de sentir e analisar o trabalho... dos outros. Mas tudo bem. Quando pessoas muito generosas das quais serei eternamente grata me escreveram ou me falaram que minhas notas sobre seus trabalhos foram extremamente úteis e generosas, fiquei feliz. Essas não foram palavras minhas. E esse reconhecimento não tem dinheiro que pague. Você quer muito ver o projeto do outro ser o máximo que ele pode ser. E todo o seu trabalho é orientado nesse sentido. E todo o seu trabalho faz sentido. E é tão gratificante quando esses projetos alcançam esse lugar.

Mas eu ainda sentia falta da minha criança criativa. Da criança que escrevia poesia, letra de música, peça, etc. Da criança que era capaz de transformar dor, alegria, tristeza em arte. Fiz de tudo pra me reconectar com ela, mas como não aconteceu, me convenci de que não merecia reencontrá-la.

Só que o universo tem um jeito “estranho” de funcionar. Parei de tentar entender e decidi só aceitar e agradecer. Um universo que tinha planos grandiosos guardados pra mim, mas sabia que eu não estava pronta pra recebê-los. Um universo que me viu tentar, muitas vezes, ser uma pessoa que eu não era, que me viu tantas vezes negar (por medo ou cegueira) ser a pessoa que eu queria ser. E olha que eu recebi muitos sinais, que eu fui ignorando ao longo da vida, por achar que não era merecedora, que não era capaz, que não era talentosa, que não tinha uma voz ou alguma coisa importante a dizer. Ora, veja quanta tolice a minha.

E somente quando eu parei de me debater e abracei o mantra do “o que tiver de ser, será”, quando eu realmente aceitei receber o amor, os elogios e até mesmo as críticas, desde que eu permanecesse honesta comigo mesma, é que o universo - essa coisinha voluntariosa e indomável - resolveu me mostrar o caminho de volta à minha criança criativa. Aquela linda criança que se alimentava de sentimentos e os traduzia em palavras. Aquela criança destemida que lançava corpo e alma no papel. Aquela criança que, mais do que ser ouvida ou compreendida, desejava emocionar, tocar outras pessoas.

Agora ela vai conseguir. Minha vida meio que depende disso. E a dela também. <3



sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

FIM DE NAMORO

Quando a gente se conheceu, foi mágico. Tudo era novo, fresco, excitante.
Senti meu peito cheio de esperança, meu coração acelerado.
A gente tinha tudo pra dar certo e tinha um longo caminho pela frente.
Mas aí, um deslize. E comecei a duvidar.
Relevei, segui em frente. Queria muito acreditar em nós.
Algumas decepções, mas mesmo assim, perdoei.
A cada agressão, pensava: Essa foi a última, agora ele vai mudar.
Mas nem minhas lágrimas, minha raiva ou minha indiferença o fizeram parar.
Demorei, mas percebi que aquele relacionamento estava se tornando abusivo, doentio.
Sofri, chorei e finalmente chegou ao fim. E não foi bom enquanto durou.
Tchau, 2016, que BOM que você acabou!