quinta-feira, 7 de agosto de 2025

PAST LIVES (2023) e a visão do amor na contemporaneidade

Poucas vezes um filme me bateu tão fundo que continua ecoando há meses e, em virtude de ter recentemente assistido THE MATERIALISTS, da mesma diretora, a sul-coreana Celine Song, o assunto voltou a me provocar.

Podemos amar duas pessoas na mesma intensidade, ao mesmo tempo?

Vidas Passadas (2023), longa de estreia de Celine, tornou-se para mim um marco silencioso e devastador na forma de retratar relações humanas. Longe dos clichês de triângulos amorosos ou da moralidade maniqueísta, o filme mergulha em um dilema profundo: é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo? E mais: é possível que ambos os amores sejam verdadeiros, embora incompatíveis?

Para quem ainda não viu – e está perdendo um filmaço - a narrativa segue Nora, uma escritora coreana que imigrou para o ocidente ainda na infância. Hoje, casada com Arthur em Nova York, ela reencontra seu amigo de infância, Hae Sung, em uma visita que reabre não apenas memórias, mas camadas inteiras de sua identidade emocional. Hae Sung é o que poderia ter sido.

Sob a lente da psicanálise freudiana, poderíamos interpretar Hae Sung como a figura ligada à repetição de uma pulsão infantil não resolvida. Freud descreve o amor como algo atravessado por ambivalências e por uma divisão entre o desejo e o ideal. Já a teoria lacaniana vai além: o amor é uma oferta de algo que nos falta. Hae Sung é, assim, o significante do "real" lacaniano — aquilo que não pode ser simbolizado, mas persiste como fenda. Na minha preferida, a teoria junguiana, os dois homens são arquétipos: Hae Sung encarna o “menino eterno”, ligado à nostalgia, ao amor idealizado, à leveza e à possibilidade. Já Arthur é o “velho sábio”, aquele que representa a maturidade, que compartilha a rotina, que estrutura e que a compreende. Nora se vê dividida entre essas duas forças internas: passado e futuro, espontaneidade e estabilidade, alma e corpo. A estrutura narrativa do filme acompanha esse dilema. As cenas são espaçadas, meditativas. O tempo não corre, espera, como o amor que ficou para trás. Não há reviravoltas, apenas o peso do que se sente e a impossibilidade de realizá-lo.

Acredito que o grande feito do filme esteja em rejeitar a ideia de que esse dilema precise ser resolvido com uma escolha drástica. Nora não trai, não nega, não finge. Ela reconhece que ama Hae Sung e também ama Arthur, mas sabe que a vida é uma só — feita de escolhas que não anulam sentimentos, mas moldam os caminhos. Essa, a grande mensagem do filme.

AGORA, O SPOILER!!! No fim, Nora chora. Chora tudo o que poderia ter vivido, e não viveu. Mas ela volta para casa. E é essa volta que sintetiza a maturidade afetiva de uma personagem que compreendeu que amar duas pessoas é possível sim, mas que nem todo amor cabe numa vida só. O coração humano não é binário. Ele é vasto. Mas a vida, essa sim, exige escolhas. E coragem para vivê-las.


sábado, 2 de agosto de 2025

FEELINGS ARE FEELINGS

 

I dreamed about you.
It was as real as the air I breathe.
I was invaded by all those old emotions. 
Old and bittersweet.
Why now? Dunno.
Couldn’t control. 
Couldn’t prevent.
Didn’t see it coming.
Why now? Dunno.
I just wanna hear your voice.
To touch your hair.
To see you smiling.
Why now? Dunno.
Believe me, it’s confusing for me too.
I just wanna hug you.
To talk to you.
To laugh with you.
Why now? Dunno.
It’s hard to be rational right now.
Feelings are feelings.
Can’t think straight.
Can’t sleep.
Can’t breathe.
Why now? Dunno.
I’m afraid too.
I tried to run away.
Or to go back in time.
We know we can’t.
It’s time to face the present.
The feeling.
The pain.
Jus’t don’t leave me here hanging.
Let’s go through this together.
Because I need you.
For better or worse.
For now.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

CARTA A UM VELHO AMIGO

 Olá, quanto tempo não nos vemos e não nos falamos.

Hoje, sem muita explicação, acordei pensando em você. 

Bateu uma saudade estranha, tive vontade de chorar.

Tive vontade de saber como você está, o que andou fazendo, as coisas que viveu e aprendeu, suas dores e alegrias. Como você está?

Engraçado é que envelhecemos, mas as memórias continuam jovens e vivas. 

Lembrei-me do tempo em que convivemos, das coisas que vivemos juntos, das risadas, das lágrimas, dos encontros despretensiosos e de tudo que poderíamos ter vivido.

Não sei bem explicar o porquê, mas sua lembrança veio de repente, sem aviso, sem contexto, mas com um sentimento profundo de arrependimento.

Poderíamos ter sido e feito tantas coisas juntos, mas quis o destino e minhas neuras que isso não acontecesse. Não posso negar, me sinto culpada por isso.

Tive uma grande curiosidade em saber o que a gente poderia ter sido e vivido.

Eu te desejei em silêncio por longos oito anos, sonhei conosco, sofri por nós, e quando finalmente isso se tornou realidade, eu desisti de viver essas experiências e decidi, assim, sem motivos, te esquecer.

Hoje desejei saber o que você sentiu, se pensou em mim, em lutar por mim, ou se aceitou o que aconteceu como algo inevitável.

Escrevo para você, que nunca vai ler esta carta, mas escrevo, principalmente para mim, tentando colocar em palavras essa lembrança repentina, que veio carregada de emoções, lágrimas e de uma vontade imensa de revisitar o passado, de reescrevê-lo.

Não somos mais os mesmos, é verdade, mas o que vivemos, é único e é nosso. Será para sempre.

Talvez ainda exista amor em algum lugar do meu inconsciente e do meu coração. Afinal, por que agora, tantos anos depois, sem aviso, você voltou a habitar meus sonhos?

Seja como for, mesmo com esse gosto amargo de arrependimento, eu agradeço o tempo que tivemos e vivemos juntos.


Um abraço.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

EU NÃO QUERO SER COMO BELLA BAXTER

Vamos aos fatos:

1) Bella Baxter é uma criança em um corpo de mulher. Se isso não lhe desperta algum gatilho, já temos um problema. 

2) Bella é tratada como um experimento, por isso, sua vida é controlada e moldada a partir desse contexto. Daí seu desprezo pelo sentimental. 

3) Depois, Bella está lá linda e inocente, explorando sua sexualidade, quando Duncan interrompe esse processo ao molestá-la. Mas Bella, cuja inocência não permite ver a maldade do ato, sai em uma aventura de descobertas pelo mundo com o tal abusador a tiracolo. Enquanto ela serve ao propósito de Duncan, ela é tratada como uma princesa. Mas, quando passa a compartilhar suas descobertas, é desprezada, enganada e acaba em um prostíbulo.

4) Vocês vão me dizer que a estadia de Bella no prostíbulo foi fácil e prazerosa? Claramente, não. O que permite Bella sobreviver à situação é sua racionalidade ímpar, sua capacidade de pensar logicamente, tirando todo e qualquer sentimento da equação.

5) Quando retorna à sua casa, já há uma “substituta” em seu lugar, tão ou mais inocente do que ela própria, presa, da mesma forma, àquele contexto limitador.

Eu fico vendo a comoção em torno da “genialidade” de POBRES CRIATURAS e não consigo deixar de pensar na ironia desse título. Para que Bella exerça sua liberdade, ela precisa ignorar a crueldade de um mundo machista ao seu redor. Um mundo que a considera estranha, mas desde que ela não interfira em seu funcionamento. 

Eu admiro a capacidade de Bella em lidar com tanta racionalidade em um mundo que condena o "sexo frágil", mas não a invejo. Essa capacidade de racionalizar sobre tantas sensações poderia sim privar as mulheres de tanto sofrimento, porém, não sentir nada quer dizer NÃO SENTIR NADA. Mesmo. E não creio que a racionalidade seja capaz de dar conta de uma existência inteira. Os sentimentos e experiências que vivemos criam sinapses que formam quem somos e como agimos. É a nossa capacidade de sentir que faz o mundo não ser tão preto no branco porque o mundo não é preto e branco e na natureza não existem linhas retas.

Então, o que Bella Baxter tem a nos ensinar? Emancipação? Duvido. Sempre que penso nisso, vem um gosto amargo de que mulheres sentimentais não tem espaço nessa emancipação. E sabemos o que acontece com sentimentos reprimidos, não é mesmo? 

Que modelo de empoderamento é esse que estamos tentando vender? 

Bella Baxter me incomoda em muitas camadas. Ela não questiona o universo masculino, ela apenas o ignora e vive apesar dele. Será que esse é o caminho?

Eu quero sim a emancipação, mas que ela possa vir com o direito de sentir, de me emocionar, de me apaixonar, de amar e ser também coração.

Não vejo isso em Bella. Gostaria de ter visto.

Abençoadas sejam as emocionadas porque sentir não é pecado!


quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

2023, não preciso da sua retrospectiva!

Este foi um ano especialmente difícil para mim. 
Transição de carreira, instabilidade financeira e mental e muitas, muitas expectativas frustradas. Em meio a um mar de atropelos e quase afogamentos, o número de pessoas dispostas a lutar por mim foi escasso. Sou extremamente grata a todos que toparam a batalha e seguem firmes ao meu lado. 
Tomei conhecimento, do pior jeito, que minha posição profissional importava muito mais do que minha amizade. E que, entre escolher dar voz ao oprimido, preferiram endossar a voz do opressor. 
Percebi que vivi onze anos em uma bolha que apenas me tolerava por conveniência. Passei de “a pessoa empoderada que não tem medo de dizer o que pensa” para “a pessoa desagradável e desequilibrada que não aceita ser contrariada”. 
Fui apunhalada pelas costas por pessoas “amigas” que poderiam ter dito, sem reservas, as mais duras verdades na minha cara. 
Comprei brigas que não eram minhas e fui deixada para queimar sozinha na fogueira. 
Senti na carne e no coração a perversidade de egos feridos e inseguros que não hesitaram em usar de seu lugar de privilégio para me excluir e me calar. 
Foram tantas violências verbais e emocionais que meu corpo e mente colapsaram e me vi internada em uma ala psiquiátrica em que terceiros tiveram que decidir por mim. Sim, pensei em desistir porque a dor se tornou insuportável. Os traumas criados se tornaram gatilhos diários, constantes e paralisantes. Terapia, medicação e carinho da família e amigos ajudam, mas não foram capazes de diluir a dor da perda. 
A perda de viver um sonho almejado, desejado, batalhado com muita resiliência e esperança por anos. Aprendi a importância de confiar em um documento assinado e não em palavras e promessas. 
Não espero compaixão, arrependimento ou qualquer movimento perto disso. Não vou cometer esse erro novamente, mas precisava desabafar em palavras toda a dor que circula em meu corpo como um veneno que me entristece, me adoece e me paralisa. 
Chorei – e ainda choro de dor e me alegro nas pequenas fagulhas de luz que esse sonho concretizado me proporciona. Sei que ainda chorarei muito em 2024, mas torço para que a mudança de ano traga analgésicos e energias curativas. 
2023 abriu uma ferida imensa. 
2024 terá a missão de transformá-la em uma mera e sutil cicatriz.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Eu tenho chorado...

Eu tenho chorado pela dor física

Eu tenho chorado pela alma

Eu choro com as imagens

Eu choro com as lembranças

Doces e amargas

Passadas e futuras

Meu corpo dói

Meu coração dói

Eu tenho chorado pelas risadas debochadas

Eu tenho chorado pelo descaso

Eu choro de tristeza

Eu choro de alegria

Agridoce sentimento

Passado e presente

Que faz meu corpo doer tanto

Que me dá náuseas

Que me dá azia

Eu tenho chorado pra expurgar

Pra esquecer

Pra lembrar

Pra resistir

E pra morrer

Eu tenho chorado muito.

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

QUAL O VALOR DA CRIAÇÃO?

Será mesmo que o trabalho da criação audiovisual se encerra na folha de papel?


Um dia alguém escreveu uma banana, mas no processo, alguém achou que deveria ser maçã, uva, laranja e no fim das contas, o que estamos vendo na tela é um abacaxi. Bem azedo. Produtos mal resolvidos, equivocados, confusos. Os Frankenstein nossos de cada dia. A essência se perde e o resultado fica aquém. Se é frustrante pro público, imagina para quem criou a coisa e dormiu com ela noites a fio!


Temos acompanhado as greves do sindicato americano de roteiristas justamente pela devida valorização do trabalho da autoria-criadora. E vejam que lá, uma das indústrias mais consolidadas do mundo, autores tem bem mais voz e são contemplados como produtores executivos de suas séries. E mesmo assim, estão reivindicando melhores condições de trabalho e remuneração.


O Brasil adentrou o mercado da narrativa seriada usando o modelo importado do cinema autoral, em que a direção geral é a voz máxima dentro de um projeto audiovisual. Acontece que, na grande maioria das vezes, essa direção entra depois que a série está criada, construída e escrita. Na teledramaturgia brasileira, a pessoa que criou, a pessoa que assina a autoria da novela, é a autoridade máxima da concepção artística. É dela que vem as diretrizes para direção, elenco, arte e o que mais abrange a criação. Obviamente que o diálogo entre entre as partes é uma via de mão dupla e as trocas são necessárias e agregadoras, mas quem segue sendo a guardiã unificadora da criação, até a novela sair do ar, é quem criou a coisa. Você pode até não gostar de novela, mas não pode negar que é um produto sólido que, em grande maioria, não se perde na unicidade de sua essência.


Já as narrativas seriadas não tem esse privilégio. O mercado trata os criadores como simples operários à serviço do papel. Roteiros são tachados de meros guias que deixam de existir uma vez que são filmados. A concepção artística dos criadores não é levada em consideração, existe pouca abertura para o diálogo e a unidade criativa vai se esvaindo a cada nova etapa de produção. Criadores não são contemplados na conversa após o desenvolvimento, raramente estão nos sets de filmagem e, quando muito, são chamadas à ilha de edição para ver o resultado de algo que não poderão opinar. Produtores opinam, executivos de canais opinam, executivos de marketing opinam, diretores, montadores e chefes de equipe opinam, até o elenco opina. Mas a pessoa que criou, escreveu, passou meses gestando a história, os personagens, o universo, criando, dando vida àquela obra, é a primeira peça a ser descartada no processo. E a mais frágil também. Ou porque teve que vender sua alma para seguir pagando seus boletos e não está com saúde pra lutar por seu devido espaço. Ou porque tem medo de ser queimada no mercado como uma pessoa "difícil". Ou porque resolveu não lutar contra essa cultura equivocada de empoderar sempre as mesmas pessoas a fazerem as mesmas coisas porque são "as donas do brinquedo".


Ah, mais a pessoa que escreveu não entende de direção, de montagem, de mercado, de marketing, de coisa nenhuma - eles dirão. Além de ser um equívoco imenso, porque sim, cada vez mais os profissionais tem se preparado para o mercado, tem estudado, acumulado experiências e participado, mesmo que sem ganhar nenhum tostão, do processo todo para garantir uma chancela, o papel da pessoa que escreveu não é dirigir, nem montar, nem vender, nem marquetar sua série. A função dela é garantir que sua criação acompanhe uma unidade criativa, que todas as áreas estejam falando a mesma língua e saibam o que essa pessoa estava pensando em dizer, mostrar, quando criou sua obra. Para as outras funções, já temos pessoas bem competentes contratadas.


Há de se pensar se esse modelo que aniquila criadores no processo de produção é saudável, agregador, se ele promove a dita diversidade ou se ele vai atender às expectativas de um público cada vez mais exigente e letrado. Há de se pensar se será possível fazer a roda girar quando criadores se unirem e abandonarem, literalmente, seus papéis para reivindicar mais respeito, mais espaço, mais diálogo, mais participação.


Talvez, nesse dia, quando a coisa toda colapsar e nem o ChatGPT for capaz de contar nossas histórias, o mercado perceba que o roteiro, a criação, não é apenas um guia, mas a alma de todo produto audiovisual.