quarta-feira, 6 de dezembro de 2023
2023, não preciso da sua retrospectiva!
quarta-feira, 29 de novembro de 2023
Eu tenho chorado...
Eu tenho chorado pela dor física
Eu tenho chorado pela alma
Eu choro com as imagens
Eu choro com as lembranças
Doces e amargas
Passadas e futuras
Meu corpo dói
Meu coração dói
Eu tenho chorado pelas risadas debochadas
Eu tenho chorado pelo descaso
Eu choro de tristeza
Eu choro de alegria
Agridoce sentimento
Passado e presente
Que faz meu corpo doer tanto
Que me dá náuseas
Que me dá azia
Eu tenho chorado pra expurgar
Pra esquecer
Pra lembrar
Pra resistir
E pra morrer
Eu tenho chorado muito.
quinta-feira, 10 de agosto de 2023
QUAL O VALOR DA CRIAÇÃO?
Será mesmo que o trabalho da criação audiovisual se encerra na folha de papel?
Um dia alguém escreveu uma banana, mas no processo, alguém achou que deveria ser maçã, uva, laranja e no fim das contas, o que estamos vendo na tela é um abacaxi. Bem azedo. Produtos mal resolvidos, equivocados, confusos. Os Frankenstein nossos de cada dia. A essência se perde e o resultado fica aquém. Se é frustrante pro público, imagina para quem criou a coisa e dormiu com ela noites a fio!
Temos acompanhado as greves do sindicato americano de roteiristas justamente pela devida valorização do trabalho da autoria-criadora. E vejam que lá, uma das indústrias mais consolidadas do mundo, autores tem bem mais voz e são contemplados como produtores executivos de suas séries. E mesmo assim, estão reivindicando melhores condições de trabalho e remuneração.
O Brasil adentrou o mercado da narrativa seriada usando o modelo importado do cinema autoral, em que a direção geral é a voz máxima dentro de um projeto audiovisual. Acontece que, na grande maioria das vezes, essa direção entra depois que a série está criada, construída e escrita. Na teledramaturgia brasileira, a pessoa que criou, a pessoa que assina a autoria da novela, é a autoridade máxima da concepção artística. É dela que vem as diretrizes para direção, elenco, arte e o que mais abrange a criação. Obviamente que o diálogo entre entre as partes é uma via de mão dupla e as trocas são necessárias e agregadoras, mas quem segue sendo a guardiã unificadora da criação, até a novela sair do ar, é quem criou a coisa. Você pode até não gostar de novela, mas não pode negar que é um produto sólido que, em grande maioria, não se perde na unicidade de sua essência.
Já as narrativas seriadas não tem esse privilégio. O mercado trata os criadores como simples operários à serviço do papel. Roteiros são tachados de meros guias que deixam de existir uma vez que são filmados. A concepção artística dos criadores não é levada em consideração, existe pouca abertura para o diálogo e a unidade criativa vai se esvaindo a cada nova etapa de produção. Criadores não são contemplados na conversa após o desenvolvimento, raramente estão nos sets de filmagem e, quando muito, são chamadas à ilha de edição para ver o resultado de algo que não poderão opinar. Produtores opinam, executivos de canais opinam, executivos de marketing opinam, diretores, montadores e chefes de equipe opinam, até o elenco opina. Mas a pessoa que criou, escreveu, passou meses gestando a história, os personagens, o universo, criando, dando vida àquela obra, é a primeira peça a ser descartada no processo. E a mais frágil também. Ou porque teve que vender sua alma para seguir pagando seus boletos e não está com saúde pra lutar por seu devido espaço. Ou porque tem medo de ser queimada no mercado como uma pessoa "difícil". Ou porque resolveu não lutar contra essa cultura equivocada de empoderar sempre as mesmas pessoas a fazerem as mesmas coisas porque são "as donas do brinquedo".
Ah, mais a pessoa que escreveu não entende de direção, de montagem, de mercado, de marketing, de coisa nenhuma - eles dirão. Além de ser um equívoco imenso, porque sim, cada vez mais os profissionais tem se preparado para o mercado, tem estudado, acumulado experiências e participado, mesmo que sem ganhar nenhum tostão, do processo todo para garantir uma chancela, o papel da pessoa que escreveu não é dirigir, nem montar, nem vender, nem marquetar sua série. A função dela é garantir que sua criação acompanhe uma unidade criativa, que todas as áreas estejam falando a mesma língua e saibam o que essa pessoa estava pensando em dizer, mostrar, quando criou sua obra. Para as outras funções, já temos pessoas bem competentes contratadas.
Há de se pensar se esse modelo que aniquila criadores no processo de produção é saudável, agregador, se ele promove a dita diversidade ou se ele vai atender às expectativas de um público cada vez mais exigente e letrado. Há de se pensar se será possível fazer a roda girar quando criadores se unirem e abandonarem, literalmente, seus papéis para reivindicar mais respeito, mais espaço, mais diálogo, mais participação.
Talvez, nesse dia, quando a coisa toda colapsar e nem o ChatGPT for capaz de contar nossas histórias, o mercado perceba que o roteiro, a criação, não é apenas um guia, mas a alma de todo produto audiovisual.
quarta-feira, 6 de abril de 2022
A MODA AGORA É SER SHOWRUNNER
Quantas vezes eu me pego lendo matérias sobre o lançamento de uma nova série e lá está o famigerado "crédito" de "showrunner". É um misto de vergonha e indignação por jornalistas que não se prestam a pesquisar as funções dos profissionais envolvidos e produtores e executivos que não ficam sequer constrangidos de carregar uma função que não exerceram. Sim, porque, para além do mico de não terem exercido, vale lembrar que a função de showrunner não é e nunca foi um crédito.
segunda-feira, 6 de setembro de 2021
Precisamos falar sobre PRIVILÉGIOS
quarta-feira, 28 de outubro de 2020
O FUTURO É FEMININO
domingo, 22 de setembro de 2019
RELATO DE PARTO
Minha jornada começou quando assisti o tão necessário documentário O RENASCIMENTO DO PARTO. Ali entendi muito sobre as violências obstétricas e a influência pesada da construção machista e patriarcal sobre o PARTO.
Em setembro de 2018, quando engravidei, só tinha uma certeza: eu queria "sim, com certeza" um parto humanizado, fosse ele em casa ou no hospital, e queria um parto natural.
O segundo passo foi procurar uma equipe médica com olhar humanizado. E assim chegamos ao Coletivo Nascer da maravilhosa Ana Cris Duarte. Lá fizemos todo o acompanhamento pré-natal e dividimos com outras mães os anseios e dúvidas do parto e da maternidade. Entendi também as reais necessidades de uma cesárea, e que também poderia ser humanizada.
Foi lá também, numa palestra sobre PLANO DE PARTO (outra grande ferramenta da família no momento do parto), que conheci minha doula anja Camila Aguiar, pessoa maravilhosa que foi essencial para que eu tivesse o parto dos sonhos. Além das dicas maravilhosas para o parto e pós-parto, ela me foi uma grande fonte de força e empoderamento e me fez a todo momento acreditar que eu era capaz.
Meu trabalho de parto começou quando completamos 40 semanas. Naquela terça-feira, eu e marido fomos à consulta pré-natal cansados e frustrados. Eu reclamava da barriga dura e da dificuldade em dormir. Estava ansiosa também. Queria ver logo a carinha da minha filha e pegá-la nos braços. Mas como eu não tinha nenhum dos sintomas previstos para um início de trabalho de parto, as previsões não eram animadoras e a gravidez poderia ir até as 42 semanas. Naquele dia, conversei com a doula e decidi fazer uma indução natural. Eu já estava na osteopatia com a maravilhosa Violaine há alguns meses para aliviar as dores nas pernas, quadril e estômago. Naquela quinta-feira, fiz a indução numa sessão de acupuntura. A osteopata me recomendou repouso total e me receitou um shake com néctar de damasco e óleo de rícino para ser tomado na sexta-feira de manhã.
E assim fizemos.
Na sexta-feira, depois de tomar o shake e deitar de novo, acordei por volta das 13h e percebi um pouco de sangue na hora de fazer xixi. Ao contrário do que se imagina, aquele foi o momento mais feliz da minha vida! Eu não tinha tido nenhum sinal ainda, nem mesmo da perda de tampão, então ver aquele sangue na privada foi motivo de pura excitação. Acordei o marido, almoçamos e sentamos pra ver televisão. Lá pelas 15h, senti uma umidade na calcinha. Ao chegar no banheiro, vi aquele líquido com cheiro de água sanitária escorrer. Era a bolsa que estava vazando. Fiquei ainda mais animada. Avisei a doula e fiquei em casa de boa com uma dorzinha bem discreta e gostosinha no topo da barriga. Pedi ao marido para me fazer uma canjica doce. Estava feliz da vida. Por volta das 17h, a doula chegou e fui para o chuveiro. A bolsa estava vazando mais, mas como ainda não tinha contrações ritmadas, Camila foi pra casa e eu fiquei no chuveiro, sentada na bola de pilates relaxando. Por volta das 18h comecei a sentir as contrações de verdade e sem nenhum intervalo entre elas. Ao contrário do que eu imaginava, a dor não era uma cólica, mas uma queimação no quadril que se intensificava e depois sumia, como uma onda. Comecei a andar pela casa enquanto esperava a doula voltar. Comi a canjica, mas nem lembro que gosto tinha, pois estava já numa outra dimensão. Por volta das 21h, Camila voltou. Fazia massagem no quadril para aliviar a dor no pico das contrações. A obstetriz, uma fada chamada Cibele Macedo, chegou em casa por volta das 23h e, ao me examinar, viu que eu já estava com 9 centímetros de dilatação e era hora de ir para o hospital. E lá fomos nós. Marido no volante, Camila no passageiro, Cibele no banco de trás comigo deitada no colo dela enquanto as contrações, sem intervalo, anunciavam um parto rápido.
Chegamos na maternidade perto da meia noite e, depois das chatices da admissão, eu, marido, doula e obstetriz, nos juntamos a querida obstetra Lívia Franzini na sala de parto. Não tive banheira, mas tive chuveiro, bola, cama e banqueta de parto pra ir revezando durante as contrações, sempre incentivada pela equipe, em especial minha doula querida, que quando eu reclamava da dor, sempre tinha palavras positivas de encorajamento e conforto. Lá pelas 2h (não tenho certeza da hora exata), doula e obstetra foram descansar um pouco e a fada Cibele ficou comigo. Subi na cama e, de cócoras durante os picos das contrações, fui administrando a dor. Já estava muito cansada e Cibele me pediu pra colocar a mão e sentir a cabecinha da bebê. Aquilo foi de uma emoção imensa e me renovou a força e coragem pra continuar ali firme. Ao me examinar de novo, Cibele percebeu um inchaço do lado esquerdo do colo do útero que estava impedindo o encaixe da bebê. Fez massagem com óleo de prímula e gelo e a dorzinha chata que tinha daquele lado desapareceu. Lá pelas 4h, a doula e a obstetra voltaram e era hora de agir. Fizemos os exercícios de spinning baby, todo mundo ajudando, inclusive o marido. Camila tirou o relógio da sala para eu não ficar preocupada com o tempo e começou a me incentivar a fazer força quando as contrações viessem. Como elas estavam mais espaçadas, eu, deitada na cama, conseguia dormir e descansar um pouquinho entre elas. E isso foi muito bom. Lá pelas 5h, fui pra banqueta de parto, marido atrás amparando as costas, obstetra no chão monitorando os batimentos da bebê, tudo forrado e preparado pro nascimento. Comecei a fazer força durante as contrações, a bebê estava ótima, mas nada de descer e sair. Camila e Cibele sempre com suas doces palavras de incentivo e encorajamento me ajudando a ficar firme. Beatriz estava chegando. Lembrei de uma vocalização que havia aprendido na aula de dança materna com a linda Pamela Morimoto que consiste em emitir um A bem forte, transformando o corpo numa grande caixa acústica que vibra e permite o bebê se encaixar melhor. Nos intervalos das contrações, eu vocalizava longos As e na contração fazia força. Na primeira força, senti o círculo de fogo. Fui tomada por uma felicidade imensa. Beatriz estava quase chegando. Na segunda força, senti minha filha já no canal vaginal, eu a chamava e ela se mexia. E eu sentia tudo. Que momento divino e mágico, ela estava ali me dando força para continuar. Na terceira força, às 6h22 da manhã de um lindo sábado, Beatriz nasceu. Naquele momento eu senti a força da natureza, meu poder como mulher, como animal, como mãe. Meu marido chorou. Eu já nem lembrava mais da dor ou do cansaço. Como um ser muito racional que sou, achei que isso seria impossível, mas descobri que hormônios são poderosos. Eu era pura alegria e amor. Nunca me senti tão bem e viva em toda a minha vida. Abraçamos nossa filha e lhes demos as boas vindas. Subi na cama sozinha, deitei, colocamos ela no peito e ela mamou como louca. Olhinhos espertos e boca certeira. Foi lindo. Ficamos ali, eu, marido e Bia curtindo nossa hora dourada com muito amor e alegria. Depois, esperamos o nascimento da placenta, que não demorou mais que 20 minutos. Em seguida, Gabriel, meu marido, cortou o cordão. Bia foi examinada pela pediatra Thais Zenero no meu colo. Tudo feito com muito amor e carinho. Levei alguns pontos pela laceração do períneo, mas não senti dor nenhuma. Como tenho aflição da agulha, reclamei um pouco, mas logo passou. Não mudaria nada do que aconteceu.
Fiz questão de citar o nome de todas as mulheres maravilhosas que me ajudaram nessa jornada porque essa é a prova de que nós mulheres somos fortes, donas de nossos corpos e mentes e capazes de feitos excepcionais como parir de forma natural e saudável. E espero que esse seja só o primeiro de muitos bons exemplos que darei a essa menina maravilhosa que coloquei no mundo. Beatriz, você me ensinou a ser uma pessoa melhor. Te amo.

