quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Eu tenho chorado...

Eu tenho chorado pela dor física

Eu tenho chorado pela alma

Eu choro com as imagens

Eu choro com as lembranças

Doces e amargas

Passadas e futuras

Meu corpo dói

Meu coração dói

Eu tenho chorado pelas risadas debochadas

Eu tenho chorado pelo descaso

Eu choro de tristeza

Eu choro de alegria

Agridoce sentimento

Passado e presente

Que faz meu corpo doer tanto

Que me dá náuseas

Que me dá azia

Eu tenho chorado pra expurgar

Pra esquecer

Pra lembrar

Pra resistir

E pra morrer

Eu tenho chorado muito.

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

QUAL O VALOR DA CRIAÇÃO?

Será mesmo que o trabalho da criação audiovisual se encerra na folha de papel?


Um dia alguém escreveu uma banana, mas no processo, alguém achou que deveria ser maçã, uva, laranja e no fim das contas, o que estamos vendo na tela é um abacaxi. Bem azedo. Produtos mal resolvidos, equivocados, confusos. Os Frankenstein nossos de cada dia. A essência se perde e o resultado fica aquém. Se é frustrante pro público, imagina para quem criou a coisa e dormiu com ela noites a fio!


Temos acompanhado as greves do sindicato americano de roteiristas justamente pela devida valorização do trabalho da autoria-criadora. E vejam que lá, uma das indústrias mais consolidadas do mundo, autores tem bem mais voz e são contemplados como produtores executivos de suas séries. E mesmo assim, estão reivindicando melhores condições de trabalho e remuneração.


O Brasil adentrou o mercado da narrativa seriada usando o modelo importado do cinema autoral, em que a direção geral é a voz máxima dentro de um projeto audiovisual. Acontece que, na grande maioria das vezes, essa direção entra depois que a série está criada, construída e escrita. Na teledramaturgia brasileira, a pessoa que criou, a pessoa que assina a autoria da novela, é a autoridade máxima da concepção artística. É dela que vem as diretrizes para direção, elenco, arte e o que mais abrange a criação. Obviamente que o diálogo entre entre as partes é uma via de mão dupla e as trocas são necessárias e agregadoras, mas quem segue sendo a guardiã unificadora da criação, até a novela sair do ar, é quem criou a coisa. Você pode até não gostar de novela, mas não pode negar que é um produto sólido que, em grande maioria, não se perde na unicidade de sua essência.


Já as narrativas seriadas não tem esse privilégio. O mercado trata os criadores como simples operários à serviço do papel. Roteiros são tachados de meros guias que deixam de existir uma vez que são filmados. A concepção artística dos criadores não é levada em consideração, existe pouca abertura para o diálogo e a unidade criativa vai se esvaindo a cada nova etapa de produção. Criadores não são contemplados na conversa após o desenvolvimento, raramente estão nos sets de filmagem e, quando muito, são chamadas à ilha de edição para ver o resultado de algo que não poderão opinar. Produtores opinam, executivos de canais opinam, executivos de marketing opinam, diretores, montadores e chefes de equipe opinam, até o elenco opina. Mas a pessoa que criou, escreveu, passou meses gestando a história, os personagens, o universo, criando, dando vida àquela obra, é a primeira peça a ser descartada no processo. E a mais frágil também. Ou porque teve que vender sua alma para seguir pagando seus boletos e não está com saúde pra lutar por seu devido espaço. Ou porque tem medo de ser queimada no mercado como uma pessoa "difícil". Ou porque resolveu não lutar contra essa cultura equivocada de empoderar sempre as mesmas pessoas a fazerem as mesmas coisas porque são "as donas do brinquedo".


Ah, mais a pessoa que escreveu não entende de direção, de montagem, de mercado, de marketing, de coisa nenhuma - eles dirão. Além de ser um equívoco imenso, porque sim, cada vez mais os profissionais tem se preparado para o mercado, tem estudado, acumulado experiências e participado, mesmo que sem ganhar nenhum tostão, do processo todo para garantir uma chancela, o papel da pessoa que escreveu não é dirigir, nem montar, nem vender, nem marquetar sua série. A função dela é garantir que sua criação acompanhe uma unidade criativa, que todas as áreas estejam falando a mesma língua e saibam o que essa pessoa estava pensando em dizer, mostrar, quando criou sua obra. Para as outras funções, já temos pessoas bem competentes contratadas.


Há de se pensar se esse modelo que aniquila criadores no processo de produção é saudável, agregador, se ele promove a dita diversidade ou se ele vai atender às expectativas de um público cada vez mais exigente e letrado. Há de se pensar se será possível fazer a roda girar quando criadores se unirem e abandonarem, literalmente, seus papéis para reivindicar mais respeito, mais espaço, mais diálogo, mais participação.


Talvez, nesse dia, quando a coisa toda colapsar e nem o ChatGPT for capaz de contar nossas histórias, o mercado perceba que o roteiro, a criação, não é apenas um guia, mas a alma de todo produto audiovisual.


quarta-feira, 6 de abril de 2022

A MODA AGORA É SER SHOWRUNNER


Quantas vezes eu me pego lendo matérias sobre o lançamento de uma nova série e lá está o famigerado "crédito" de "showrunner". É um misto de vergonha e indignação por jornalistas que não se prestam a pesquisar as funções dos profissionais envolvidos e produtores e executivos que não ficam sequer constrangidos de carregar uma função que não exerceram. Sim, porque, para além do mico de não terem exercido, vale lembrar que a função de showrunner não é e nunca foi um crédito. 

Eu sei que a nossa realidade está distante da indústria audiovisual americana - ou mesmo europeia, mas já que decidimos importar o título, vale conhecer, nas palavras dos próprios, o que significa a função. Primeiro, pra ser bem didática, aqui vai a definição da palavra no dicionário: show - a série, o projeto, a obra; runner - o condutor. A função, que essencialmente é exercida por autores-roteiristas, diz respeito ao gerenciamento criativo e de produção de uma série. Showrunner, que é creditado como Produtor Executivo ou Produtor (esses sim créditos válidos), é responsável por garantir a unidade artística da obra, por gerenciar o orçamento, as contratações de equipe e elenco e por ser a principal ponte de comunicação com produtores e executivos de canais. 

Sim, é muita coisa, e talvez tenhamos poucos nomes aqui no Brasil que de fato preencham todos os requisitos. Mas daí a banalizar a coisa e sair colocando essa função no LinkedIn como se nada? Por favor, tenhamos um pouco de senso de ridículo. 

O mais importante a saber é que, se você não escreve, não é o autor/criador da série ou não é o roteirista-chefe, nunca abriu um programa de formatação de roteiro na vida, não sabe o que é escaleta, arco de personagem, ponto de virada, ou qualquer outra nomenclatura que basicamente define dramaturgia, ou nunca escreveu uma linha de roteiro na sua vida, não se intitule showrunner. Porque você não é. Ponto. Se você vai jogar o controle criativo na mão de um diretor que não escreve, isso não faz dele um showrunner, muito menos você. Se você é produtor ou faz a supervisão artística de um projeto, você também não é showrunner. Se você é o executivo de canal encarregado do projeto ou o dono da produtora, também não faz de você um showrunner. Se o canal te deu esse título porque você é o dono da ideia ou diretor da série, mas não está todo dia na sala de roteiro tomando decisões sobre as escolhas da sua história, dos seus personagens, ou nunca escreveu uma linha desse texto, você também não é showrunner. 

Precisamos parar de glamourizar a ideia de showrunner. Ao se auto intitular em uma função apenas "porque sim", você não se torna mais inteligente, mais interessante ou com mais poder, você se torna apenas arrogante mesmo. Ao nosso mercado, falta formação, falta humildade, falta abandonar a síndrome do cachorro vira-lata e a soberba de achar que não tem mais nada a aprender. Não há problema nenhum em olhar para o que funciona e adaptar para nossa realidade. Queremos estar entre os grandes, ganhar prêmios, ter nossas séries assistidas e renovadas por muitas temporadas. Mas vivemos um atraso de décadas em relação a outros mercados audiovisuais mais amadurecidos, lidamos todos os dias com a mediocridade de alguns governantes que não respeitam arte e cultura, com o desafio de formar plateias, e de convencer investidores (em sua maioria internacionais) de que somos capazes de fazer mais do que o mesmo. Enquanto não colocarmos nosso ego de lado, arregaçarmos as mangas e colocarmos a mão, de fato, na massa, não tem como a gente amadurecer ou provar nada. Seguiremos abaixando a cabeça para a mediocridade e para a hipocrisia que nos cercam. 

Algumas fontes: 
BENNET, Tara. Showrunners: The Art of Running a TV Show, 2014. 
KALLAS, Christina. Na Sala de Roteiristas, 2016. 
SCOVELL, Nell. Só as partes engraçadas, 2019.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Precisamos falar sobre PRIVILÉGIOS

E lá vamos nós tirar a poeira desse blog lindudemeodeos! O assunto da vez é PRIVILÉGIOS. Será que estamos prontos para abrir mão de nossos privilégios em prol de uma sociedade mais justa, igualitária e representativa? Como MULHER nesse mercado audiovisual há mais de 10 anos, inúmeras foram as vezes em que me vi numa sala de reunião onde eu era a única mulher presente e inúmeras foram as vezes em que minha opinião teve de ser validada por um homem para valer como opinião. Alguns homens sequer me dirigiam o olhar. Alguns anos (e muita militância) depois, esse cenário foi mudando, mais mulheres nas listas de opções para contração, mais mulheres participando das reuniões em posições de liderança, mais homens entendendo seu papel nesse novo mundo, interessados em ouvir, interessados em mudar. Há ainda, contudo, uma longa caminhada pela frente. Vivemos em tempos no qual homens ainda opinam sobre nossos direitos reprodutivos, nos objetificam, nos violentam física e psicologicamente e até nos matam em nome de seu “direito adquirido”. O machismo estrutural ainda é um problema que requer mais do que apoiar uma causa ou curtir posts feministas. Requer, acima de tudo, vigilância diária, empatia, ouvir mais do que falar, às vezes ceder espaço para dar palco a outras vozes. Vozes essas que tendem a discordar da opinião vigente. Como pessoa BRANCA, coube a mim entender que meu feminismo precisaria abarcar não só outras raças, mas outras classes sociais menos favorecidas e o que mais aparecesse no caminho. E acreditem, muitos dedos ainda se apontarão para mim. Como parte de uma estrutura, é normal que, mesmo vigilantes e empáticos, ainda nos sejam apontados vários dedos. E isso às vezes é bem desconfortável. Mas necessário. O que eu percebo, infelizmente, especialmente em relação a pessoas brancas, cis e, particularmente homens, é que elas, por sempre terem ocupado o topo da cadeia de privilégios, talvez não estejam dispostas a serem incomodadas, a viverem esse desconforto diaria e constantemente. Especialmente se os dedos apontados e questionamentos vierem de pessoas próximas, como um colega de trabalho, um amigo ou mesmo de um ente querido. Quando se está em um lugar em que sua existência, voz ou opinião nunca é questionada ou silenciada, é bem incomodo se acostumar a isso. Mas não é NADA se comparado com a dor desse outro que não tem esse privilégio. Nada mesmo. Eu queria muito entender por qual motivo, nós, do conforto do nosso privilégio, estamos preferindo nos fechar na nossa bolha, ignorando, invalidando ou mesmo desprezando a dor do outro e rindo de banalidades como uma série de brancos babacas exercendo seu privilégio, enquanto o mundo lá fora pega fogo e clama por nossa ajuda, cooperação e empatia. Seria medo de perder os tais privilégios? Ou de encarar, de fato, que talvez não tenhamos merecido esse lugar? Ainda estou pra descobrir... Como mulher, percebo claramente os benefícios da evolução que citei no começo deste texto. E não só para as mulheres. Para a sociedade como um todo mesmo. Melhora o debate público, as relações interpessoais, a saúde mental, e até a economia. E isso não é uma opinião, é um fato. O que me leva a acreditar que evoluir é preciso e o resultado dessa equação nos fará sempre melhores. Aproveito para dividir com vocês, a crítica perfeita feita pela roteirista e presidente da ABRA, mulher, negra, Maíra Oliveira sobre a série THE WHITE LOTUS. Para finalizar essa reflexão, fica aqui o meu apelo: Em tempos de tanta polarização, dialogar também é um ato de resistência. <3

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O FUTURO É FEMININO

Quando eu andava na rua com a camiseta que estampa essa frase, percebia os olhares em mim. Sempre de homens. Sempre fazendo piadinhas. Uma delas aconteceu no trabalho: "não, o futuro é a igualdade de gêneros". Sempre tentando me corrigir, me "educar", me diminuir. Claro que eu nunca me abalei mais do que o necessário com esses comentários, mas poderia ter explicado, bem didaticamente, que o significado dessa frase vai muito além do que está escrito nela. O futuro é feminino, sim. Porque o feminino constrói ao invés de destruir. O feminino agrega ao invés de dividir. Tem empatia, colaboração, altruísmo, caridade e amor. Porque o feminino usa a força para resistir e edificar, usa a dor e a derrota para aprender e evoluir. O feminino se permite sentir, se permite chorar e acolher. O feminino abraça, beija e toca por afeto. O feminino não se apropria, não mina, não cerceia. Não à toa, o feminino gesta vidas. E em cada vida, uma esperança de um futuro mais feminino. O mundo está visivelmente mais carente desse feminino. E para aqueles que ainda nao entenderam o significado de FEMININO, uma dica: Com que energia você encara o mundo ao seu redor?

domingo, 22 de setembro de 2019

RELATO DE PARTO

Desde que decidi engravidar, em 2017, comecei a pesquisar sobre PARTO HUMANIZADO e descobri que sabia muito pouco sobre o assunto. E descobri também como o PARTO NORMAL era visto como um vilão para muitas mulheres, que associavam este momento a uma experiência de dor e sofrimento.
Minha jornada começou quando assisti o tão necessário documentário O RENASCIMENTO DO PARTO. Ali entendi muito sobre as violências obstétricas e a influência pesada da construção machista e patriarcal sobre o PARTO.
Em setembro de 2018, quando engravidei, só tinha uma certeza: eu queria "sim, com certeza" um parto humanizado, fosse ele em casa ou no hospital, e queria um parto natural.
O segundo passo foi procurar uma equipe médica com olhar humanizado. E assim chegamos ao Coletivo Nascer da maravilhosa Ana Cris Duarte. Lá fizemos todo o acompanhamento pré-natal e dividimos com outras mães os anseios e dúvidas do parto e da maternidade. Entendi também as reais necessidades de uma cesárea, e que também poderia ser humanizada.
Foi lá também, numa palestra sobre PLANO DE PARTO (outra grande ferramenta da família no momento do parto), que conheci minha doula anja Camila Aguiar, pessoa maravilhosa que foi essencial para que eu tivesse o parto dos sonhos. Além das dicas maravilhosas para o parto e pós-parto, ela me foi uma grande fonte de força e empoderamento e me fez a todo momento acreditar que eu era capaz.
Meu trabalho de parto começou quando completamos 40 semanas. Naquela terça-feira, eu e marido fomos à consulta pré-natal cansados e frustrados. Eu reclamava da barriga dura e da dificuldade em dormir. Estava ansiosa também. Queria ver logo a carinha da minha filha e pegá-la nos braços. Mas como eu não tinha nenhum dos sintomas previstos para um início de trabalho de parto, as previsões não eram animadoras e a gravidez poderia ir até as 42 semanas. Naquele dia, conversei com a doula e decidi fazer uma indução natural. Eu já estava na osteopatia com a maravilhosa Violaine há alguns meses para aliviar as dores nas pernas, quadril e estômago. Naquela quinta-feira, fiz a indução numa sessão de acupuntura. A osteopata me recomendou repouso total e me receitou um shake com néctar de damasco e óleo de rícino para ser tomado na sexta-feira de manhã.
E assim fizemos.
Na sexta-feira, depois de tomar o shake e deitar de novo, acordei por volta das 13h e percebi um pouco de sangue na hora de fazer xixi. Ao contrário do que se imagina, aquele foi o momento mais feliz da minha vida! Eu não tinha tido nenhum sinal ainda, nem mesmo da perda de tampão, então ver aquele sangue na privada foi motivo de pura excitação. Acordei o marido, almoçamos e sentamos pra ver televisão. Lá pelas 15h, senti uma umidade na calcinha. Ao chegar no banheiro, vi aquele líquido com cheiro de água sanitária escorrer. Era a bolsa que estava vazando. Fiquei ainda mais animada. Avisei a doula e fiquei em casa de boa com uma dorzinha bem discreta e gostosinha no topo da barriga. Pedi ao marido para me fazer uma canjica doce. Estava feliz da vida. Por volta das 17h, a doula chegou e fui para o chuveiro. A bolsa estava vazando mais, mas como ainda não tinha contrações ritmadas, Camila foi pra casa e eu fiquei no chuveiro, sentada na bola de pilates relaxando. Por volta das 18h comecei a sentir as contrações de verdade e sem nenhum intervalo entre elas. Ao contrário do que eu imaginava, a dor não era uma cólica, mas uma queimação no quadril que se intensificava e depois sumia, como uma onda. Comecei a andar pela casa enquanto esperava a doula voltar. Comi a canjica, mas nem lembro que gosto tinha, pois estava já numa outra dimensão. Por volta das 21h, Camila voltou. Fazia massagem no quadril para aliviar a dor no pico das contrações. A obstetriz, uma fada chamada Cibele Macedo, chegou em casa por volta das 23h e, ao me examinar, viu que eu já estava com 9 centímetros de dilatação e era hora de ir para o hospital. E lá fomos nós. Marido no volante, Camila no passageiro, Cibele no banco de trás comigo deitada no colo dela enquanto as contrações, sem intervalo, anunciavam um parto rápido.
Chegamos na maternidade perto da meia noite e, depois das chatices da admissão, eu, marido, doula e obstetriz, nos juntamos a querida obstetra Lívia Franzini na sala de parto. Não tive banheira, mas tive chuveiro, bola, cama e banqueta de parto pra ir revezando durante as contrações, sempre incentivada pela equipe, em especial minha doula querida, que quando eu reclamava da dor, sempre tinha palavras positivas de encorajamento e conforto. Lá pelas 2h (não tenho certeza da hora exata), doula e obstetra foram descansar um pouco e a fada Cibele ficou comigo. Subi na cama e, de cócoras durante os picos das contrações, fui administrando a dor. Já estava muito cansada e Cibele me pediu pra colocar a mão e sentir a cabecinha da bebê. Aquilo foi de uma emoção imensa e me renovou a força e coragem pra continuar ali firme. Ao me examinar de novo, Cibele percebeu um inchaço do lado esquerdo do colo do útero que estava impedindo o encaixe da bebê. Fez massagem com óleo de prímula e gelo e a dorzinha chata que tinha daquele lado desapareceu. Lá pelas 4h, a doula e a obstetra voltaram e era hora de agir. Fizemos os exercícios de spinning baby, todo mundo ajudando, inclusive o marido. Camila tirou o relógio da sala para eu não ficar preocupada com o tempo e começou a me incentivar a fazer força quando as contrações viessem. Como elas estavam mais espaçadas, eu, deitada na cama, conseguia dormir e descansar um pouquinho entre elas. E isso foi muito bom. Lá pelas 5h, fui pra banqueta de parto, marido atrás amparando as costas, obstetra no chão monitorando os batimentos da bebê, tudo forrado e preparado pro nascimento. Comecei a fazer força durante as contrações, a bebê estava ótima, mas nada de descer e sair. Camila e Cibele sempre com suas doces palavras de incentivo e encorajamento me ajudando a ficar firme. Beatriz estava chegando. Lembrei de uma vocalização que havia aprendido na aula de dança materna com a linda Pamela Morimoto que consiste em emitir um A bem forte, transformando o corpo numa grande caixa acústica que vibra e permite o bebê se encaixar melhor. Nos intervalos das contrações, eu vocalizava longos As e na contração fazia força. Na primeira força, senti o círculo de fogo. Fui tomada por uma felicidade imensa. Beatriz estava quase chegando. Na segunda força, senti minha filha já no canal vaginal, eu a chamava e ela se mexia. E eu sentia tudo. Que momento divino e mágico, ela estava ali me dando força para continuar. Na terceira força, às 6h22 da manhã de um lindo sábado, Beatriz nasceu. Naquele momento eu senti a força da natureza, meu poder como mulher, como animal, como mãe. Meu marido chorou. Eu já nem lembrava mais da dor ou do cansaço. Como um ser muito racional que sou, achei que isso seria impossível, mas descobri que hormônios são poderosos. Eu era pura alegria e amor. Nunca me senti tão bem e viva em toda a minha vida. Abraçamos nossa filha e lhes demos as boas vindas. Subi na cama sozinha, deitei, colocamos ela no peito e ela mamou como louca. Olhinhos espertos e boca certeira. Foi lindo. Ficamos ali, eu, marido e Bia curtindo nossa hora dourada com muito amor e alegria. Depois, esperamos o nascimento da placenta, que não demorou mais que 20 minutos. Em seguida, Gabriel, meu marido, cortou o cordão. Bia foi examinada pela pediatra Thais Zenero no meu colo. Tudo feito com muito amor e carinho. Levei alguns pontos pela laceração do períneo, mas não senti dor nenhuma. Como tenho aflição da agulha, reclamei um pouco, mas logo passou. Não mudaria nada do que aconteceu.
Fiz questão de citar o nome de todas as mulheres maravilhosas que me ajudaram nessa jornada porque essa é a prova de que nós mulheres somos fortes, donas de nossos corpos e mentes e capazes de feitos excepcionais como parir de forma natural e saudável. E espero que esse seja só o primeiro de muitos bons exemplos que darei a essa menina maravilhosa que coloquei no mundo. Beatriz, você me ensinou a ser uma pessoa melhor. Te amo.

sábado, 20 de janeiro de 2018

SADNESS

And I let this blue feeling invades my heart and produces some tears.
In a way, it makes me stronger, it gives me courage and the awareness that I can do anything.
That I can fight the world...
Even if I feel I am not ready or worth of it.
So I'll let this feeling takes me by assault, transforms me, pushes me forward...
Because if I can feel it, I can manage it or just find the right spot to place it inside of me.